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Processos Seletivos Internacionais: o que muda, comparado ao Brasil?


Quando falamos em diferenças culturais entre países, isso se aplica a vários aspectos da vida, inclusive as relações de trabalho. Dessa forma, faz sentido esperar alguma variação também nos processos seletivos. Mas o que exatamente muda? Qual a diferença, por exemplo, de uma entrevista no Brasil e uma no Canadá?


Para entender melhor o tema, conversei com colegas que atuam em diversos países, tanto recrutadores (que fazem os processos seletivos) quanto profissionais de outras áreas que foram candidatos aprovados. Contei com a colaboração de uma rede de contatos incrível, tanto de pessoas que eu já conhecia quanto de novos contatos que vieram por indicação. Ao fim, colhi informações sobre processos seletivos de 4 continentes, num total de 19 países: Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Chile, Colômbia, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Holanda, Hungria, Japão, Malásia, México, Peru, Portugal, e Reino Unido.


Neste artigo, trago os principais insights que tive a partir dessas conversas, comparando com a minha vivência como recrutadora no Brasil e, atualmente, Mentora de Carreira. Vem comigo! 😉


NÃO É UMA RECEITA PRONTA

Vale reforçar que, assim como no Brasil os processos seletivos podem variar de acordo com a organização, o mesmo acontece em outros países. Por exemplo: no artigo Como funciona um processo seletivo: o que todo candidato precisa saber eu compartilho os bastidores de quando atuei como Recrutadora em uma indústria multinacional - e isso não significa que todas as empresas sigam os mesmos critérios. Trata-se de um norte, um direcionamento, não uma regra - e o mesmo vale para este artigo sobre processos seletivos internacionais.


QUAIS COSTUMAM SER AS ETAPAS DO PROCESSO?

A título de comparação, vamos considerar um processo seletivo brasileiro com muitas etapas, como:


  • Inscrições online;

  • Triagem de currículos;

  • Entrevista com RH por telefone ou vídeo;

  • Dinâmicas de grupo e estudos de caso;

  • Entrevistas com gestores;

  • Testes (técnicos, psicológicos, perfil, inglês);

  • Conferência de documentos ou referências;

  • Exame admissional;

  • Proposta.


De forma geral, processos seletivos realizados no Brasil e em outros países da América Latina (como México e Peru) parecem incluir mais etapas do que outras regiões. Em outros países os processos parecem ser simplificados: na Finlândia, por exemplo, o foco está nas entrevistas: através de algumas, com gestores diferentes, é possível avaliar aspectos técnicos, o que substitui etapas de testes.


Em alguns locais a quantidade de candidatos concorrendo à mesma vaga é bem menor do que a realidade brasileira: na Holanda, por exemplo, 20 candidaturas pode ser bastante, dependendo da vaga e da empresa, o que facilita a etapa de filtro dos currículos e torna desnecessário o uso de algum software de triagem nesse momento (ou seja, a seleção de currículos é feita manualmente). Já na Austrália, se o processo for complexo e demorar para ser concluído, o candidato pode não estar mais disponível, por ter aceito outra proposta - o que incentiva as empresas a terem processos mais ágeis.

Outro ponto interessante são os exames médicos admissionais. Embora sejam uma exigência no Brasil, eles não são realizados em todos os países. No Reino Unido, por exemplo, dependendo da função essa etapa não é obrigatória, e em outros países ela é considerada ilegal sob a perspectiva das leis trabalhistas locais.


ONDE ENCONTRAR E SE CANDIDATAR ÀS VAGAS?

O uso do LinkedIn como principal plataforma para encontrar candidatos foi citado por quase todos os profissionais com quem conversei. Também houve menções aos sites oficiais das empresas, a algumas plataformas (como Indeed, Infojobs e Michael Page) e aos recrutadores externos (como assessorias de RH locais).


Nessa fase, ao preparar seu currículo estratégico para uma candidatura, é importante ajustá-lo culturalmente. Por exemplo, o curso de "Comércio Exterior" pode ser equivalente a uma "Engenharia Comercial" no Chile, e essa adequação pode ser decisiva para avançar ou não no processo seletivo. Ter experiência no mesmo segmento da empresa desejada também pode ser um diferencial no país, portanto vale a pena encontrar uma forma de mencionar isso de forma "traduzida".


Em casos específicos, como o Japão, há agências especializadas na contratação de profissionais descendentes de japoneses que buscam imigrar. Já no caso do Canadá, percebi um incentivo ao networking: o consultor de carreira com quem conversei estima que mais de 90% das vagas são preenchidas através do contato com outros profissionais de maneira informal - bem mais do que os resultados das candidaturas tradicionais. É como se um cafézinho se tornasse uma substituição da entrevista.


COMO SÃO AS ENTREVISTAS?

Sobre as questões trazidas das entrevistas, tanto as feitas com profissionais de RH (geralmente focadas em habilidades comportamentais) quanto as feitas com gestores parecem similares às realizadas no Brasil. Entretanto, há questões locais que influenciam no direcionamento dessa conversa.


Nos Estados Unidos, por exemplo, há restrições legais que impedem perguntas pessoais ou que possam soar invasivas: nada de "você não tem filhos, mas quando está pensando em ter?", por exemplo. Particularmente acredito que seria uma boa inspiração para o Brasil, pois evita julgamentos que não somam para a avaliação profissional do candidato.


Em países como a Bélgica, as perguntas podem ser direcionadas a algo mais prático: falando mais das experiências e do que o candidato sabe fazer, enquanto que na Áustria pode-se focar em como o candidato se identifica com a cultura da empresa (algo mais voltado à paixão), bem como em como pretende contribuir para o ramo de negócio.


O tom da conversa (mais formal, informal, acolhedor ou direto) também pode variar. Uma profissional que orientei durante a preparação para entrevistas concorria à uma vaga na Eslovênia e, ao ser entrevistada por um alemão, notou a necessidade de ajustar o seu discurso para ser mais objetiva.

Ah, sabe aquele ansioso momento de aguardo por um retorno sobre o resultado da entrevista? Em alguns países, como a Hungria, esse feedback pode ser dado na hora, logo ao fim da conversa.


OUTROS ASPECTOS CULTURAIS INTERESSANTES

Ao atuar em empresas multinacionais, o conhecimento em idiomas, como o inglês, permite que um profissional atenda às demandas globais (como participar de reuniões com profissionais de outros países). Para empresas na Espanha, somamos o espanhol como língua, certo? E tem mais: dependendo da região onde a empresa está localizada, o conhecimento em catalão pode ser um diferencial.


Na Malásia, não espere almoçar ou dividir um táxi com um colega de gênero oposto: há restrição sobre homens e mulheres ficarem na mesma sala (exceto quando são casados). Há também uma legislação rígida para pessoas não-heterossexuais, o que cria uma dinâmica de trabalho e de vida mais restrita do que é social e legalmente aceito no Brasil.


As horas de trabalho costumam ser mais respeitadas em países onde há um maior nível de seguridade social em comparação com o Brasil. Na Alemanha, por exemplo, é mais comum que os profissionais cumpram suas demandas dentro do horário padrão de trabalho (sem tantas horas extras) pois não há tanto "medo de ser mandado embora", o que propicia um ritmo de vida menos acelerado.


O QUE É QUE O BRASILEIRO TEM "A MAIS"?

Alguns aspectos da nossa cultura podem nos favorecer diante de outros candidatos ao participar de processos seletivos em outros países. Por exemplo:


  • Já pensou em o seu conhecimento em Português ser um diferencial? É algo que pode ocorrer em países da América Latina, como a Colômbia. Afinal, há grandes empresas cujas filiais no continente sulamericano ficam no Brasil, e ter a habilidade de representar uma empresa em nível global, dialogando em português com os nossos conterrâneos, pode facilitar algumas atividades;

  • Em processos seletivos no Brasil muitas vezes há uma exigência de nível de inglês tão avançado que fica difícil atender completamente a esse requisito. Por outro lado, essa não é a realidade de outros países onde tantas pessoas têm o inglês como segunda língua e que, com certeza, cometem alguns erros. Portanto, o seu inglês imperfeito (aos olhos brasileiros) pode ser mais do que o suficiente em times multiculturais na Europa, por exemplo;

  • Geralmente associadas à cultura brasileira, soft skills como empatia, flexibilidade e negociação podem ser mais relevantes em uma seleção do que requisitos técnicos. Claro que isso varia de cargo para cargo, mas pode ser um diferencial apostar nessas habilidades durante o processo seletivo, especialmente na entrevista (recomendo a leitura do artigo: Perca o medo da entrevista: como se "vender" como o melhor candidato);

  • Caso você seja um profissional que começou a construir experiências desde jovem, isso pode ser um diferencial: em alguns países é comum que os profissionais primeiro concluam certo nível de escolaridade para então começarem a trabalhar. Assim, um profissional jovem que já possui alguma bagagem (formal ou informal) pode ser atraente em comparação a outros candidatos, pois transmite a ideia de ser hard worker (ou seja, dedicado).


Lembre-se: qualquer processo seletivo é um risco para ambos os envolvidos. Por um lado, o candidato busca a melhor posição: um cargo que tenha uma boa remuneração, que promova seu desenvolvimento, em uma empresa com a qual se identifique e em uma equipe onde possa se integrar bem.


Por outro lado, a empresa busca o melhor canditato: que atende à maior parte dos requisitos, terá um bom desempenho, se identifica com a cultura da organização e interage bem com a equipe. Além disso, contratar um funcionário vindo de outro país pode demandar custos extras para uma empresa, inclusive se essa relação não der certo: na França, por exemplo, uma demissão pode ser bem cara.


Por isso, vale a pena ter clareza de quais posições realmente fazem sentido para o seu plano de carreira - e com os pés no chão (trago mais insights aqui no artigo Vivência Internacional: adaptações de vida que vão muito além da carreira). Tendo essa decisão tomada, defina uma estratégia, pois será necessário demonstrar que, além de possuir o fit para aquela posição, você também tem um planejamento sobre como será sua vida no novo país. Assim, você transmitirá mais segurança e comprometimento durante o processo seletivo, o que aumenta suas chances de receber a tão desejada proposta :)


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Artigo publicado originalmente aqui.