• Valeska Petek

Transição de carreira: se uma já é desafiadora, imagine duas


Apesar de sabermos que mudanças fazem parte da vida, é comum que elas nos causem algum desconforto, afinal, há uma sensação de insegurança pelo que está por vir. Esse é um dos motivos pelos quais muitos profissionais, mesmo insatisfeitos, receiam em dar o primeiro passo rumo a um novo emprego, por exemplo.


Isso tudo é normal. Enfrentar mudanças demanda coragem, para ir em frente mesmo quando surgem questionamentos como:


  • Será que vou dar conta? Será que sou bom o suficiente?

  • E se não acontecer como planejei? O que vou fazer?

  • Estamos enfrentando uma crise... eu deveria mesmo me arriscar nesse momento?

  • ...e muito mais!


A verdade é que não vamos dar conta de tudo mesmo: temos muito a aprender, e faz parte. Também podemos lidar com imprevistos que fujam do nosso controle, e daí recalculamos a rota quantas vezes forem necessárias - é inteligente fazer ajustes no plano da nossa carreira diante de novas informações. E sobre o tema da crise... desde que nasci escuto que o Brasil está em crise. Uma coisa é lermos o cenário do mercado e avaliarmos os riscos antes de agir, outra coisa é impedir a si mesmo de tentar algo diferente por uma sensação constante de que o melhor a fazer é continuar "seguros" onde estamos.


Imagine a energia necessária para olhar esse cenário e passar por uma transição de carreira mesmo assim. Agora, imagine fazer isso duas vezes. Essa é a história da Suelen Nina, que deixou um cargo em uma empresa multinacional para coordenar projetos relacionados a causa de refugiados no Brasil. Em outro momento de vida, ela optou por fazer o caminho inverso: com uma bagagem recheada de experiências, retornou ao mundo corporativo, visando uma nova fase pessoal e profissional. Confira essa história inspiradora! 😉


Vamos lá, Su! Podemos começar contando um pouco sobre você? Qual a sua formação acadêmica?

Sou Suelen Nina, tenho 31 anos e sou formada em Relações Públicas pela UNESP e pós graduada em Gestão de Negócios pela ESPM.


Quantos anos você tem de experiência em cada área?

Possuo 8 anos de experiência na área corporativa e praticamente 2 anos no terceiro setor.


Quais habilidades (soft skills) você percebe ter?

Acredito que eu possua soft skills ligadas principalmente a relacionamento interpessoal, como a comunicação falada (considero meu ponto forte, principalmente por meio de palestras e mediações), a comunicação escrita, habilidades de negociação e criação de conexões/vínculos (networking) e a empatia.


Além disso, há algumas áreas de conhecimento pelas quais me interesso, e que me ajudam a desenvolver essas e outras habilidades: Filosofia, História, Psicologia (mente e comportamento humano) e Sociologia.


Agora vamos entender a sua trajetória: com qual idade você começou a trabalhar?

Comecei a trabalhar com 17 anos, como vendedora de roupas em um shopping perto de casa. Levava aquela experiência com bastante empolgação, pois me considerava “gente grande” em poder ganhar meu próprio dinheiro, mesmo que pouco. Foi nesta primeira experiência que aprendi técnicas de vendas com os veteranos, criando conexões com clientes e pensando em estratégias para vender mais. Além disso, foi a primeira vez que comecei a fazer planos para adquirir coisas que, apesar de simples, significavam bastante para mim, pois eu conseguiria adquirir com meu próprio dinheiro. Me lembro do primeiro salário recebido em dinheiro, no caixa da loja: foi uma realização para uma menina daquela idade. Juntamente com as realizações, foi a primeira vez que comecei a lidar com frustrações das vendas perdidas, das relações com os demais vendedores, das 13 horas trabalhadas por dia (principalmente em época de Natal e Ano-Novo). Foi a experiência que marcou meu processo de transição, de uma menina mais "ingênua" se desenvolvendo para a carreira que estava por vir.


Na época, como você imaginava que seria a sua carreira no futuro? Você sonhava em ter alguma profissão em específico? Alguém que te inspirava?

Apesar de nova, eu sempre fui uma menina sonhadora que vislumbrava aquilo que era grandioso e, talvez, impossível. Eu não tinha muita noção do que era possível ou não, então tudo na minha cabeça era permitido. Desde adolescente, eu tinha o sonho de ser uma pessoa de relações humanas, talvez uma diplomata, talvez uma representante institucional de alguma organização. Eu me imaginava trabalhando de terninho e salto alto, falando diferentes línguas, em contato com diversas culturas e regionalidades. Não me lembro ao certo de uma pessoa específica que me inspirava, mas confesso que adorava assistir as assembleias da ONU, encontros das nações (G20, World Economic Forum, etc), com os líderes mundiais discutindo sobre pautas relevantes no cenário global. Em especial, as mulheres executivas me brilhavam demais os olhos. De alguma forma eu já me inspirava, desde jovem, no empoderamento feminino que elas exerciam por meio de seus trabalhos.


Você tinha um planejamento de carreira?

Não, só sonhava alto mesmo. Algo interessante para dizer é que, desde os 19 anos de idade, eu almejei que adoraria me tornar palestrante. Desde aquela época, eu comecei a detectar que possuía habilidades de comunicação falada, então até hoje, aos 31 anos, ainda possuo este sonho. Quanto a planejamento de carreira, eu nunca tive. Mas o que eu sempre tive foi o hábito de determinar pequenos shots (conquistas marcantes a curto e médio prazo). Por exemplo, almejei ingressar em uma universidade pública, realizar meu intercâmbio com 100% de bolsa de estudos e ingressar como trainee de uma grande empresa. Com imensa gratidão, absorvi o melhor que as conquistas poderiam oferecer e parti para o próximo step (passo).


Entretanto, o passar dos anos me trouxe maturidade, e comecei a perceber que, juntamente com conquistas, vinham as derrotas e fracassos. Vivemos em uma sociedade que tolera pouco ou quase nada as experiências negativas, e passei por frustrações e auto punições exageradas por falta de entendimento de mim mesma, do entorno e do poder do tempo. Por isso, reforço como é importante dar atenção a filosofia, história, sociologia e psicologia, pois são matérias que ensinam muito de quem você quer ser e quão complexo o seu entorno é, fazendo com que você não seja o centro do controle. Diferentemente do imediato, tais matérias te aprofundam na sabedoria do esperar, do se dedicar e do se esforçar, e aos poucos você começa a compreender que tudo tem o tempo para acontecer e, inclusive derrotas e frustrações, podem ser grandes professoras.


Em suma, a junção dos baby steps, com encarar a realidade como ela é, me tornaram uma profissional mais resiliente, fazendo com que eu incluísse o planejamento de carreira como um asset importante para o meu desenvolvimento. Além das Mentorias, hoje possuo planejamento de aprendizagem, gestão de tempo, otimização de atividades, equilíbrio vida versus trabalho. Tenho objetivos profissionais estabelecidos, e sigo me esforçando, dia após dia, não para conquistar o melhor, mas sim para ser uma melhor versão de mim. Com planejamento e perseverança, a conquista cedo ou tarde chega, acompanhada sempre de grandes ensinamentos.


Qual (e como) foi a sua maior mudança profissional?

Minha maior coragem profissional foi o movimento que fiz, experimentando migrar do mundo corporativo para o setor humanitário. Por praticamente 2 anos, optei por deixar de lado padrões e perspectivas (principalmente financeiras) estáveis e seguras para mergulhar de cabeça na causa de refugiados. Essa experiência ocorreu entre meus 28 e 30 anos de idade, e sinto que foi tempo suficiente para eu aprender da vida o que nenhum curso teórico poderia me dar. Em vez de ter começo, meio e fim, prefiro dizer que essa experiência teve um despertar, um amadurecimento e uma ressignificação, do meu papel no mundo, dos meus valores e do meu propósito, respectivamente.


Essa mudança aconteceu por uma escolha sua ou foi causada por algum outro motivo?

Foi uma escolha 100% minha, em controvérsia com tudo que falaram e todos que discordaram. Fui bastante criticada por tomar tal decisão pois, de fato, era uma movimentação arriscada pelos olhos de muitos. Porém, decidi que eu não gostaria de olhar para trás, aos 60/70 anos, sem saber como teria sido se eu tivesse tentado seguir meu coração aos 28 anos de idade. Eu não fazia ideia se minha movimentação daria certo, mas eu estava disposta a me jogar para saber no que iria dar. Decidi não ser uma pessoa que se arrependeria por nunca ter feito, mas sim ter a certeza de que eu ao menos tentei.



Qual foi a sua primeira ação para fazer essa mudança acontecer?

Destaco alguns marcos que me despertaram a consciência social. Reforço que esse despertar acontece aos poucos, levando anos para muitos conceitos e decisões se concretizarem.

O primeiro marco foi em 2016, com a minha participação no One Young World, congresso global em que jovens líderes de todo o mundo se reúnem para discutirem sobre problemas emergentes globais e possibilidades de soluções. Além da intersecção cultural, lá, pela primeira vez, eu tive contato com uma realidade fora da minha bolha social. Ao voltar desse primeiro e leve furar de bolha, passei 2 anos com um comportamento que eu chamo de “reclamar no conforto do seu sofá”, que para mim significa “despertar para as mazelas ao seu entorno, e no conforto do seu sofá, começar a questionar, discutir, reclamar sem fazer absolutamente nada para mudar a realidade”. Isso aconteceu comigo, porém após 2 anos, eu tive a oportunidade de ter uma segunda grande experiência que mudaria o rumo da minha vida.


O segundo marco foi em 2018, quando fui enviada para realizar um trabalho voluntário na Tanzânia/África. Foi a primeira vez que tive contato com a desigualdade mais desmascarada, com a dificuldade de direitos básicos do ser humano, onde o romper da bolha foi total e intenso. E este despertar é um caminho sem volta. Uma vez que você enxerga as bolhas além da sua, a primeira das reações é se chocar. E assim fiquei, chocada, pelos anos de 2018 e 2019, quando finalmente decidi que era hora de eu fazer algo diferente com as minhas próprias mãos. Era hora de eu parar de reclamar e, de fato, fazer alguma coisa, mesmo não tendo a menor ideia do que poderia ser até então.


O terceiro marco, finalmente, foi eu optar por fazer algo diferente por meio do meu trabalho, experienciando os anos de 2019 a 2021 no setor humanitário, lidando diariamente com o que eu acreditava que agregaria valor a minha trajetória profissional, pessoal e, principalmente, ao mundo.


Quanto tempo levou, mais ou menos, desde a sua primeira ação até você sentir que essa transição foi concluída?

Nos anos de 2019 a 2021, eu me conectei à causa de refugiados, e por essa causa dediquei meus dias e noites de trabalho e de vida, de forma intensiva. É interessante ressaltar que este movimento nos traz a ilusão de que temos a obrigação de fazer acontecer de forma grandiosa, como mudar o mundo, mudar a rota ou o destino. Mas o que percebi, ao longo desses anos, é que se pensarmos que precisamos mudar tudo, a nossa atuação, por mais árdua que seja, vai nos parecer pequena. Tão pequena que aquilo pode nos frustrar, fazendo-nos chegar a errônea conclusão de que nossa atuação não muda em nada a realidade do nosso entorno. E quando percebi que, na verdade, o que move o mundo são as pequenas grandes ações que fazemos ao nosso redor em um raio de 10, 20 pessoas de distância, toda a minha perspectiva mudou. Hoje, sou uma mulher que não necessariamente sonha grande, mas necessariamente realiza algo concreto por alguém. O que muda o mundo são muitas pessoas fazendo um pouco para outras poucas pessoas. O que muda o mundo, no fim das contas, são pessoas. Onde quer que as pessoas estejam.


Por objetivos de vida que defini para meus próximos 10 anos, hoje estou determinada a construir meu futuro no Brasil, em São Paulo. Acredito que o corporativo se encaixe ao meu perfil profissional e, com minha experiência de trabalho, almejo incentivar as pessoas ao meu redor a reverem comportamentos, a mudarem perspectivas e construírem uma cultura à qual elas acreditem nos valores e atitudes.


O que você precisou aprender? E quais conhecimentos você aproveitou da área anterior?

Pessoas que, como eu, possuem o perfil de se dedicar ferrenhamente a algo, precisam aprender quando dar pausas para respirar. Pessoas com esse perfil tendem a ir ao seu máximo limite achando que são máquinas, e se esgotar na mesma intensidade.


Ao longo dos meus anos de carreira, precisei aprender a gerir emoções, impor limites, saber diferenciar o empenho da exaustão, entender a diferença entre o indivíduo x coletivo, saber definir qual tempo é para qual coisa. Precisei aprender a sentir a dor do outro e, curiosamente, aprender a sentir minha própria dor, seja ela psicológica ou emocional. Precisei aprender a transformar a dor em aprendizado, e compreender que toda experiência te torna mais forte.


O que aproveitei de todas as experiências profissionais que tive foi minha incessante vontade de me relacionar com as pessoas, de entender o que se passa na cabeça e na vida de cada um, desenvolvendo a todos nós a partir das nossas histórias.


Por fim: qual conselho você daria para alguém que esteja considerando passar por mudanças de carreira?

Meu conselho é: pense bem ao ponto de assumir riscos calculados, mas não pense tanto a ponto de se tornar um risco que te trava. O que diferencia a loucura da coragem é uma linha tênue, por isso seja corajoso ou, talvez, um pouco louco! Se tudo der errado, saiba que você fará parte de uma minoria da população com orgulho de ter construído uma vida e uma carreira que ninguém pôde viver por você. Afinal, o que é uma carreira de sucesso senão aquela recheada de experiências únicas para recordar? :)


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Se você se identificou com a história da Suelen, me conte! E marque aqui alguém que está passando por reflexões parecidas e que vai gostar desse artigo. Vou adorar ler seus comentários ou dúvidas!


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Artigo publicado originalmente aqui.