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Mulheres na Engenharia: o impacto quando o estímulo vem de casa


Quando leio reportagens sobre mulheres em determinadas profissões, meu primeiro pensamento costuma ser "que bom seria se pudéssemos falar sobre isso sem especificar o gênero, focando no desempenho de cada indivíduo". Entretanto, em áreas de atuação cuja proporção de mulheres é bem menor em comparação à dos homens, essa abordagem torna-se necessária.


A tão falada representatividade (ou seja, quando uma pessoa ou grupo acaba sendo exemplo para outros semelhantes que ainda não ocupam os mesmos espaços) faz a diferença nas nossas crenças. É aquela ideia de que "se alguém como eu já fez isso, eu também posso chegar lá".


Há diversos fatores que influenciam na escolha de uma profissão. Destaco aqui dois deles:


▶ Há preferências pessoais, claro. Como seres humanos, podemos nos interessar por áreas de conhecimento diferentes - isso significa que há mulheres em ciências exatas, biológicas, sociais, humanidades e artes, por exemplo.


▶ Por outro lado, somos pessoas inseridas em um contexto social, que influencia nossa visão de mundo. Por exemplo: ao pensar em um profissional de enfermagem, quantos de nós imaginamos homens nesse cargo? E ao descrevermos um profissional motorista de caminhão, quanto tempo leva até uma mulher vir à nossa mente?


Ao reconhecer esses estereótipos, tão naturalizados no nosso cotidiano, fica mais fácil entender de onde eles vêm e, principalmente, como podemos agir para diminuir o impacto deles. Imagine como seria se uma menina achasse natural ser motorista de caminhão, tanto quanto ser enfermeira, ou piloto de avião, ou professora de inglês?


A Jéssica Moura Martinucho é um exemplo de mulher que, há mais de 15 anos, está inserida em ambientes majoritariamente masculinos. Engenheira, ela compartilha nesse artigo um pouco dos aprendizados que teve ao longo da sua trajetória. Confira e compartilhe com outras mulheres que você conhece! 😉


Vamos lá, Jé! Podemos começar conhecendo um pouco sobre você? Qual a sua formação acadêmica (graduação, pós-graduação)?

Sou formada em Engenharia de Produção Mecânica e pós-graduada pela FGV no MBA de Logistics and Supply Chain Management. Gosto de citar também a formação técnica que despertou meu interesse pelo setor industrial, através do curso de Mecânica Automobilística pelo Senai de Bauru.


Quantos anos você tem de experiência?

No setor automotivo eu tive cerca de dois anos de experiência como consultora técnica em uma concessionária de veículos da Ford. No entanto, a logística retém maior parte de minha experiência profissional, somando doze anos de jornada, desde atividades operacionais de chão-de-fábrica, liderança de operadores, engenharia logística e otimização de transportes.


Quais habilidades (soft skills) você percebe ter?

Considero por minhas habilidades comportamentais a liderança, comunicação, trabalho em equipe, resolução de problemas, negociação, flexibilidade e resiliência.


Agora vamos entender a sua trajetória: com qual idade você começou a trabalhar?

Em meu primeiro trabalho, aos dezesseis anos, assumi uma rotina que se iniciava as cinco da manhã, no ônibus de Bauru a Pederneiras, seguido pelo retorno no período da tarde em que eu assistia as aulas no Senai. Neste contexto, eu cursava o Ensino Médio em período noturno, e toda essa rotina me permitiu desenvolver responsabilidade, autonomia e determinação. Eu adorava viver a experiência de ser adulta e adolescente ao mesmo tempo.

Imagem: Arquivo pessoal


Na época, como você imaginava que seria a sua carreira no futuro? Você sonhava em ter alguma profissão em específico? Alguém que te inspirava?

Esta é uma excelente pergunta. Enquanto criança, meus pais se mudavam bastante de cidade por justificativas profissionais. Então, estas constantes mudanças de escola, ambientes e pessoas, me despertava curiosidade, vontade de aprender e explorar experiências inéditas. Quando pequena, meu sonho primário era ser Astronauta mas acabei me distanciando disso em minha jornada. Meu pai, sendo mecânico e funileiro, acabava me envolvendo nesse contexto automobilístico, então por muitos anos sonhei ser Mecânica da Fórmula 1. Minha irmã, que é onze anos mais velha que eu, sempre foi minha maior inspiração, pois desde jovem conquistava bolsa integral de ensino através do seu ótimo desempenho nas provas, que a permitiram estudar em escolas particulares de excelente qualidade. Foi então que ela se formou Engenheira Civil pela UNESP, e foi vendo a realidade dela que me inspirei por seguir na Engenharia.


Você tinha um planejamento de carreira?

Não, aos dezesseis anos eu não tinha um planejamento de carreia ou clareza sobre minhas escolhas profissionais. Eu estava bem relutante, querendo concluir o Ensino Médio pelas manhãs com meus colegas e depois pensar no que fazer da vida. Minha mãe foi extremamente relevante em minha jornada profissional, pois me apresentou a possibilidade do curso técnico no Senai e insistiu, me apresentando os benefícios em seguir nesse caminho.


Na prática da sua profissão, no dia a dia, você percebe uma maioria de profissionais homens na Engenharia?

Sim, ainda percebo. Nós mulheres tivemos de conquistar o direito a poder trabalhar, então isso com certeza nos atrasou quando comparado aos homens. Entendo que essa é uma realidade que vem sendo fortemente trabalhada pela sociedade e pelas empresas: já tenho notado maior quantidade de mulheres na Engenharia, assim como em outras áreas predominantemente masculinas.


Foi assim também durante os seus estudos?

Sim, tanto é que, em 2008, no curso técnico automobilístico, éramos apenas duas meninas em uma sala com trinta meninos. Já na faculdade de Engenharia de Produção Mecânica, em 2014, notei maior representatividade de mulheres, mas acredito que não ultrapassava 30% da sala.


Essa vivência (em um grupo composto em sua maioria por homens), se tornou de alguma forma diferente pra você, ao longo dos anos atuando na área?

Sim, estar num contexto predominantemente masculino me fez conquistar várias habilidades comportamentais e a resiliência acredito ter sido a maior delas. Aos dezessete anos eu atuava como consultora técnica em uma concessionária, e ter de falar com clientes predominantemente homens sobre os problemas técnicos de seus veículos, naquela época, foi muito desafiador, pois eu precisava provar a todo momento que tinha aplicabilidade técnica e sabia do que estava falando. O ano era 2009 e mesmo assim eu ouvia dos clientes a preferência por não serem atendidos por mulheres.

Tenho uma série de situações desafiadoras, mas ter passado por todas elas e notar o quanto evoluímos neste assunto no decorrer dos anos, se torna um combustível para seguir aprendendo e amadurecendo cada vez mais nesse quesito.


Qual a parte mais difícil sobre atuar em uma área majoritariamente masculina? E como você escolheu lidar com ela?

Gosto de citar o filme “A Tenente de Cargil” pois reflete a realidade e as dificuldades que nós mulheres já vivemos em algum momento ao longo de nossa vida profissional - ou que tivemos a oportunidade de conhecer por terem sido compartilhadas conosco por amigas ou colegas de profissão.


Sinto que as dificuldades têm sido bem mais brandas do que quando comecei nesse ramo. Em geral, o que ainda sinto dificuldade em conduzir é quando alguns colegas sentem uma necessidade tremenda de explicar algo que nós já sabemos, quando se apropriam de nossas ideias trocando apenas algumas palavras ou ainda quando nos interrompem impedindo concluirmos nosso raciocínio. Embora não sejam características exclusivas dos homens, esses comportamentos ainda estão mais presentes em ambientes predominantemente masculinos. Gosto muito de me comunicar, então eu escolhi lidar com isso através de uma comunicação assertiva que permita ao outro refletir sobre comportamentos imperceptíveis até então.


Imagem: Arquivo pessoal


Legal! Então você ajusta a sua comunicação considerando as pessoas com quem se comunica?

Procuro sempre ajustar minha comunicação ao tipo de público. Inclusive, me lembro de ter lido sobre a importância de adequar a comunicação no livro “Como fazer amigos e influenciar pessoas”. Esse deve ser o meu próximo passo de desenvolvimento: aprimorar ainda mais essa soft skill, no sentido de gestão da minha imagem, adequando o não-verbal à forma como eu gostaria de me posicionar.


Por fim: qual conselho você daria para atuais ou futuras Engenheiras?

Justamente pelo cenário dinâmico, de constantes mudanças de cidade que vivi em minha infância, gosto muito de aprender e conhecer coisas novas. O principal conselho que eu daria aos futuros Engenheiros e Engenheiras é para que busquem constante aperfeiçoamento profissional, acadêmico e comportamental. A atualidade está em constante evolução e, portanto, as empresas não se contentam com funcionários medianos ou estagnados. Da mesma forma, como profissionais, precisamos estar sempre atentos em ter um plano de carreira com protagonismo - e que este plano contemple muito mais do que apenas os requisitos de remuneração, ou descrição de cargo, mas que contemple também um alinhamento dos seus valores com os da empresa. Tenha em mente estar em uma função que te permita aprender, se aperfeiçoar constantemente e contribuir de forma alinhada com seu potencial! :)


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Se você se identificou com a história da Jéssica, me conte! E marque aqui alguém que está passando por reflexões parecidas e que vai gostar desse artigo. Vou adorar ler seus comentários ou dúvidas!


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Artigo publicado originalmente aqui.