• Valeska Petek

Da Manutenção Industrial à Costura: uma inusitada carreira multidisciplinar


Fico surpresa com a quantidade de informações interessantes que passo a conhecer sobre as pessoas quando pergunto "Quem é você?". Já ouvi profissionais contando que, quando crianças, queriam ser jogadores de futebol, atores... alguns contam que seu maior hobby é cozinhar, ou que durante o tempo livre adoram ser voluntários em projetos de proteção aos animais. Essas histórias costumam vir acompanhadas de um "mas isso não vai me ajudar a planejar minha carreira daqui pra frente, porque eu não estou afim de largar tudo. Já dediquei muitos anos à área que atuo e não quero perder o que construí". Em alguns casos, esse raciocínio pode até fazer um pouco de sentido, mas se isso fosse totalmente verdade, não teríamos profissionais com carreiras multidisciplinares - ou seja, que aplicam suas habilidades a mais de uma área. Isso vale tanto pra quem faz uma transição de carreira quanto para quem mantém duas carreiras em paralelo.


Hoje compartilho a história da Ana. Além de sermos amigas (nos conhecemos em um curso), trabalhamos juntas na estruturação de estratégias para que ela pudesse ser mais persuasiva ao se comunicar em entrevistas de emprego na área de Manutenção Industrial. E não para por aí: ela também é empreendedora, no ramo de confecção de pijamas (que ela mesma costura). Confira essa entrevista e se inspire em como conectar áreas aparentemente tão diferentes! 😉


Vamos lá, Ana! Podemos começar conhecendo um pouco sobre você? Qual a sua formação acadêmica (graduação, pós-graduação)?


Sou casada, mãe do Gustavo e do Giovanni, e aqui em casa amamos os felinos (temos duas gatinhas). Sou de família (materna e paterna) muito humilde, trabalhadora e sem muito acesso aos estudos. Me formei em Tecnologia Mecatrônica Industrial em 2014 e tenho experiência na área. Em paralelo, sou empreendedora: costuro e gerencio meu negócio de Pijamas.


Quantos anos você tem de experiência em cada área?


Tenho 15 anos de experiência em indústrias metalúrgicas. Passei por Produção, Engenharia, Atendimento ao Cliente e os últimos 5 anos foram na Manutenção Industrial (incluindo Facilities e projetos de ampliação fabril). Como empreendedora já são quase 2 anos.


Quais habilidades (soft skills) você percebe ter?


Sou motivada por uma rotina dinâmica, ao mesmo tempo em que não abro mão da segurança no trabalho. Tenho agilidade e proatividade para solucionar problemas, além de ótimos relacionamentos com pessoas de diferentes áreas (amo ensinar e aprender com elas). Meu filho mais velho diz que me vê como uma pessoa resiliente e perseverante. Sou também leal aos meus valores (o que é inegociável pra mim, pois prezo muito pela ética e pelo respeito com tod@s).


Agora vamos entender a sua trajetória: com qual idade você começou a trabalhar?


Foi aos 12 anos, informalmente como empregada doméstica. Fui mãe muito jovem e, depois de uma pausa, trabalhei como costureira em uma locadora de trajes para casamento. Aos 20 anos consegui meu primeiro trabalho com carteira assinada, como empregada doméstica, e aos 22 iniciei minha trajetória na indústria metalúrgica.


Na época, como você imaginava que seria a sua carreira no futuro? Você sonhava em ter alguma profissão em específico?


Pra falar a verdade, com 12 anos eu não tinha ideia de como seria o meu futuro. Mas minha forte lembrança era sobre a paixão em trabalhar fora para ter o meu dinheiro e poder comprar minha primeira bike nova com marchas. Nessa época, me lembro de insistir muito pra minha mãe convencer a dona da casa onde trabalhava para me treinar e eu assumir o lugar dela, e assim aconteceu. Minha mãe sempre foi minha referência, e depois vieram os educadores: de educação física, matemática, história e inglês. Me lembro que queria ser especificamente professora de inglês.


Você tinha um planejamento de carreira?


Nenhum. Não sabia nem o que era isso! 😊


O que te levou a empreender em uma área diferente da sua área de formação? Foi uma escolha sua ou foi causada por algum outro motivo?


Eu diria que a principal causa foi a dor pós-demissão que vivi logo no início da pandemia, em março de 2020. Na época, mais de 260 pessoas foram demitidas da indústria onde eu trabalhava (inclusive eu, que um mês antes havia comemorado 14 anos trabalhando lá). Me vi sem chão, sem rotina, sem as pessoas que faziam parte do meu dia a dia... e com a costura eu pude, de certa forma, me desconectar de tudo que doía em mim naquele momento e ressignificar muitas coisas. Mesmo depois de ter me recolocado no mercado, eu mantive meu negócio como empreendedora em paralelo.


Qual foi a sua primeira ação para fazer esse projeto acontecer?


Nesse período, eu reencontrei minha melhor amiga de infância, e hoje vejo que minha primeira ação foi aceitar ajuda e compartilhar com ela minha dor, que então foi transformada em um projeto que me trouxesse uma nova rotina. A partir daí, surgiram outras ações:


  • Defini qual seria minha marca pensando no significado do meu nome: Ana, “aquela que é graciosa, cheia de graça”;

  • A amiga de infância me ajudou com a criação da minha logo, e a impressão de moldes, etiquetas e tags. Outra amiga estruturou toda a página do Instagram pra mim (estamos por lá como @cheiadgraca2).

  • Testei com meu filho mais novo os primeiros produtos: pijamas para o frio (ideais para quem mora em Curitiba, como eu).


Quanto tempo levou, mais ou menos, desse a sua primeira ação até você sentir que seu negócio poderia ser seu trabalho principal?


Aproximadamente 2 meses.


O que você precisou aprender? E quais conhecimentos você "aproveitou" da área anterior?


Antes de tudo, precisei focar na minha autoestima, trabalhando a coragem e a confiança. Tecnicamente, precisei aprender sobre precificação de produtos (considerando as variáveis dos tamanhos) e atualmente tenho estudado vendas e marketing digital. Para os demais processos, apliquei praticamente todo o conhecimento adquirido trabalhando na indústria: segurança para trabalhar, foco no cliente (para uma execução ágil, estratégica e sequencial, mantendo a qualidade), atendimento ao cliente, atenção aos detalhes (no corte e na costura), embalagem e entrega. Também faço melhorias contínuas nos produtos, processos e serviços, inclusive no atendimento de necessidades específicas (por exemplo, para quem precisa de peças com comprimentos diferentes do padrão do molde). Me inspiro até em procedimentos da manutenção: mantendo a vida útil dos meus equipamentos, fazendo contato com fornecedores, gerenciando todo o processo com o cliente, reduzindo o impacto gerado ao meio ambiente (retalhos), entre muitos outros!


Hoje você considera a ideia de atuar apenas na sua área de formação?


Atuar na área industrial como funcionária é minha prioridade, mas seguirei com o empreendedorismo em paralelo por dois motivos: primeiro, por ser algo que me desconecta das dificuldades do dia a dia (recarregando minhas energias) e também por ser uma renda extra.


Por fim: qual conselho você daria para alguém que esteja considerando o empreendedorismo como uma decisão de carreira (seja como uma mudança permanente ou como algo temporário durante a busca por uma vaga)?


  • Tenha coragem. Vá e faça, pois o medo e o frio na barriga sempre vão existir. Comece pequeno, focando no que já sabe fazer e nas habilidades que já tem (acredite, tem muitas habilidades aí!). Durante o percurso, melhore e faça ajustes;

  • Se não souber o que fazer ou como, peça ajuda, escute pessoas experientes, considere novas possibilidade e conexões em sua vida. Procure boas referências (não mais de 3, para não te confundir) e aceite apoio em assuntos que não domina: isso se chama humildade. Não conseguimos fazer tudo sozinhos, então tenha gratidão e respeito pelas pessoas que contribuem para o seu crescimento, e deixe-as saber disso;

  • Acredite em você. Sorria sempre que falar sobre si mesmo, suas habilidades e qualidades, e valorize seu conhecimento. Essa foi uma das primeiras e várias dicas que ganhei dessa maravilhosa pessoa e profissional que é a Valeska, através do curso Minha Próxima Entrevista, jamais esquecida e que uso com frequência por aqui (tenho até um lembrete que deixo aqui do lado). A conexão que tenho com ela é tão genuína que dificilmente passamos muito tempo sem compartilhar algo;

  • Invista no seu autoconhecimento. Como aprendi com outros mentores que também mantenho contato (Triö Desenvolvimento e Carolina Castro). O melhor presente que podemos nos dar, é se autoconhecer! Essas são habilidades para a vida;

  • Revisite o passado apenas para visualizar as boas lembranças, aprendizados e lições. Com esses dados, viva o presente e construa um bom futuro para você. Acolher quem você é e se dar a permissão para ser feliz é fundamental, isso irá te conectar com sua essência. Encontre o que te faça feliz (o que te proporciona bem estar) e viva isso;

  • Seja responsável pelos seus resultados. Terceirizar o que é única e exclusivamente sua responsabilidade não é uma boa opção. A escolha consciente e intencional de nossas ações constrói caminhos novos e com ótimos resultados para nossas vidas.


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Se você se identificou com a história da Ana, me conte! E marque aqui alguém que está passando por reflexões parecidas e que vai gostar desse artigo. Vou adorar ler seus comentários ou dúvidas!


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Vamos juntos construir a carreira que você quer ter?


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Artigo publicado originalmente aqui.